El Niño: veja como preparar a casa para enfrentar o calor no Pará
Publicado Diário FMem 15/10/2026
Com a aproximação dos meses mais quentes e a previsão de influência do El Niño nas condições climáticas da Amazônia, o calor intenso pode voltar a desafiar a rotina dos moradores de Belém, da Região Metropolitana e de outras regiões do Pará. Além de manter a hidratação e evitar a exposição prolongada ao sol, adaptar a casa é uma alternativa para amenizar a sensação térmica e tornar os ambientes mais agradáveis.
Segundo a arquiteta e urbanista Isabella Assôfra, pequenas mudanças na disposição dos móveis, no uso de cortinas e na circulação do ar podem contribuir para o conforto térmico. Mestre em Arquitetura, com ênfase em conforto ambiental pela Universidade Federal do Pará (UFPA), ela também é especialista em sustentabilidade pela mesma instituição e em reabilitação urbana pela Universidade de Brasília (UnB).
A especialista destaca que o resultado depende da combinação de estratégias, como ventilação natural, sombreamento e controle da entrada de radiação solar. A seguir, veja as principais orientações para preparar a casa para os períodos de temperaturas elevadas.
Plantas ajudam a amenizar o calor?
Incluir plantas na decoração pode contribuir para melhorar o ambiente, mas o efeito sobre a temperatura precisa ser compreendido. De acordo com Isabella, a vegetação pode favorecer o microclima por meio da evapotranspiração, além de oferecer sombra em pontos específicos e melhorar a percepção de conforto.
“Vegetação em vasos pode contribuir para o microclima por meio da evapotranspiração, além de melhorar a qualidade ambiental percebida e proporcionar sombreamento localizado”, explica a arquiteta.
No entanto, a presença de algumas plantas não é suficiente para reduzir significativamente a temperatura de um apartamento. “Em um apartamento em Belém, algumas plantas não serão suficientes para reduzir significativamente a temperatura do ambiente; o efeito é muito menor do que aquele produzido por sombreamento adequado, ventilação cruzada e redução da radiação solar direta”, alerta.
Para escolher as espécies, é importante considerar a iluminação disponível, a umidade e a necessidade de manutenção. Em imóveis pequenos, jardineiras verticais, vasos compactos, suportes suspensos e estantes com plantas são alternativas para aproveitar o espaço.
A disposição dos elementos também exige cuidado para não bloquear a passagem do ar. “Do ponto de vista arquitetônico, recomenda-se utilizar jardineiras verticais, suportes suspensos, vasos de pequeno porte e estantes vegetadas, mantendo corredores, portas, janelas e áreas de circulação desobstruídos”, orienta Isabella.
Ventilação natural é essencial
Em cidades quentes e úmidas, como Belém, favorecer a circulação do ar é uma das medidas mais importantes para melhorar o conforto dentro de casa. A movimentação do ar ajuda a remover o calor acumulado e aumenta a troca de calor entre o corpo e o ambiente.
“A ventilação natural é uma das estratégias mais importantes para o conforto térmico em Belém, especialmente porque o clima quente e úmido exige a remoção do calor acumulado e o aumento da velocidade do ar sobre o corpo”, afirma a arquiteta.
Mesmo sem grandes reformas, algumas mudanças podem melhorar a ventilação. Uma delas é abrir portas e janelas em horários favoráveis, desde que as condições externas permitam. Outra é favorecer a chamada ventilação cruzada, que ocorre quando o ar entra por uma abertura e encontra uma saída em outro ponto do imóvel.
“Móveis altos, estantes, armários e sofás posicionados diretamente diante das janelas ou entre duas aberturas podem criar obstáculos à circulação do ar”, explica Isabella.
Por isso, a recomendação é evitar móveis volumosos diante das esquadrias e manter livres os caminhos por onde o ar circula. Quando houver condições adequadas de segurança e privacidade, portas com venezianas ou elementos vazados também podem facilitar a ventilação entre os cômodos. Aberturas próximas ao teto podem ajudar na saída do ar quente acumulado nas partes mais altas.
Cortinas para bloquear o sol sem abafar a casa
Cortinas e persianas são aliadas no controle da radiação solar, principalmente em ambientes que recebem sol direto durante boa parte do dia. A escolha do material e a forma de utilização, porém, fazem diferença no resultado.
“Cortinas claras, de tecido adequado e instaladas próximas à esquadria, especialmente quando associadas a elementos externos de sombreamento, ajudam a reduzir a incidência de radiação solar”, explica Isabella.
O cuidado é evitar que a proteção contra o sol impeça a circulação de ar nos momentos em que a ventilação natural pode ser aproveitada. Cortinas muito pesadas, mantidas completamente fechadas durante todo o dia, podem dificultar a entrada e a movimentação do ar.
A orientação é adaptar a estratégia às condições climáticas ao longo do dia. “Durante os períodos de maior insolação, deve-se bloquear a radiação direta; quando a temperatura externa estiver mais favorável, deve-se priorizar a abertura das esquadrias e a movimentação do ar”, recomenda a especialista.
Cores claras e materiais podem reduzir o ganho de calor
Além da decoração, as características construtivas do imóvel influenciam a temperatura interna. A orientação solar, o tipo de cobertura, as paredes, os vidros, as janelas e os dispositivos de proteção solar precisam ser considerados em conjunto.
“A escolha dos materiais e dos componentes da envoltória da edificação exerce influência significativa sobre o desempenho térmico dos ambientes, especialmente em cidades de clima quente e úmido como Belém do Pará”, afirma Isabella.
Uma alternativa é priorizar cores claras nas superfícies externas, pois elas refletem uma parcela maior da radiação solar e podem reduzir o ganho de calor pela edificação.
“O uso de cores claras nas superfícies externas, por exemplo, pode contribuir para a redução do ganho térmico, uma vez que apresentam maior capacidade de reflexão da radiação solar”, explica.
Nos apartamentos localizados nos últimos pavimentos, a cobertura merece atenção especial por estar mais exposta à incidência solar. Entre as alternativas que podem ser avaliadas estão materiais com maior refletância solar, isolamento térmico e coberturas ventiladas ou sombreadas, quando forem tecnicamente viáveis.
Refrescar apartamentos pequenos sem gastar muito
Quem mora em um apartamento compacto, sem quintal ou varanda, também pode adotar medidas para melhorar o conforto térmico. Nesse caso, o ideal é combinar ventilação, sombreamento e redução das fontes de calor produzidas dentro de casa.
“Em apartamentos pequenos, especialmente quando não há quintal ou varanda, a estratégia de melhoria do conforto térmico deve ser baseada na combinação entre ventilação natural, sombreamento e redução das fontes internas de calor”, orienta a professora.
Entre as medidas de baixo custo estão manter as janelas desobstruídas, instalar cortinas ou persianas claras nas áreas mais expostas ao sol e utilizar ventiladores de teto ou portáteis para aumentar a circulação do ar.
“O uso de ventiladores de teto ou portáteis também pode contribuir para aumentar a velocidade do ar sobre os ocupantes e melhorar a sensação térmica”, acrescenta Isabella.
As plantas podem complementar essas medidas, desde que sejam posicionadas sem bloquear portas, janelas ou corredores. Para quem pretende investir em melhorias no imóvel, a instalação de brises, persianas externas e toldos também pode ser considerada. Esses elementos ajudam a bloquear a radiação solar antes que ela atinja diretamente as paredes e os ambientes internos.
Estratégias combinadas são mais eficazes
Para a arquiteta, não existe uma solução isolada capaz de garantir o conforto térmico em períodos de calor intenso. O resultado depende da integração entre as características do imóvel e as medidas adotadas pelos moradores.
“O desempenho térmico de uma edificação em Belém não depende de um único material ou elemento construtivo, mas da integração entre soluções de projeto, características da envoltória, controle da radiação solar, ventilação natural e estratégias de sombreamento”, conclui Isabella.
Assim, pequenas mudanças na organização dos ambientes podem ajudar a enfrentar os dias mais quentes. Em imóveis que recebem muita radiação solar ou apresentam pouca ventilação, intervenções específicas podem ser necessárias para melhorar o conforto térmico de forma mais efetiva.