Produtos agroecológicos pedem passagem
Publicado em 24/07/2022
A salvaguarda de um patrimônio sociocultural e ambiental de valor inestimável garante à capital paraense um grande potencial para a valorização de produtos da sociobiodiversidade. Diante desse cenário, os institutos Fronteiras do Desenvolvimento, Regenera e Clima e Sociedade, em conjunto com associações locais, mapearam iniciativas de produção, comercialização e consumo de alimentos agroecológicos existentes em Belém. O objetivo foi desenvolver uma tecnologia social que indique as melhores práticas de comércio que podem apoiar o crescimento do setor não apenas no Pará, mas em todo o Brasil.
Os guias “Boas Práticas para a Comercialização de Alimentos Agroecológicos” e “Guia de Comunicação para a Comercialização Justa de Alimentos Agroecológicos” foram desenvolvidos a partir das pesquisas realizadas, no período entre 2021 e 2022 em Belém, pelo projeto “Da Amazônia para Belém: fomento a sistemas locais de alimentos regenerativos”.
Uma das pesquisadoras do projeto, Beatriz Duarte destaca que o material aponta os principais atributos que um estabelecimento precisa considerar para apoiar a comercialização de alimentos oriundos da produção agroecológica. Apesar de o estudo ter sido feito em Belém, os atributos podem ser replicados em qualquer cidade. “Esse guia pode ser aplicado por pessoas que desejam abrir ou que já possuem um estabelecimento de comercialização de produtos agroecológicos e querem aprimorá-lo”, aponta. “Nós focamos no elo da comercialização, pensando que, se fortalecermos esse elo, ampliamos a produção e o consumo desses alimentos agroecológicos também”, garante.
Durante a pesquisa e o processo de elaboração dos guias, Beatriz aponta que foi possível identificar que existe uma grande oportunidade para o desenvolvimento desse segmento na capital paraense. “Belém é muito rica em relação ao que é produzido, são alimentos de muita riqueza sociocultural, mas poucos são explorados. Temos o exemplo do açaí, que é um alimento que ganhou o mundo, mas assim como o açaí existem vários outros alimentos da sociobiodiversidade que podem ser mais valorizados”.
O estudo observou, ainda, que existe uma grande necessidade de fortalecimento dessa cadeia, sobretudo no que se refere à logística de escoamento da produção. Diante desse e outros cenários, se observa que a comercialização desses produtos, em Belém, ainda ocorre por nichos específicos. “Através de uma pesquisa qualitativa, identificamos que o consumidor desses produtos, em Belém, são, em sua maioria, pessoas com nível superior e renda alta, na faixa de 40 anos. Muitos deles são pessoas que trabalham direta ou indiretamente com o meio ambiente”, aponta. “Então, existe uma oportunidade muito grande de ampliar a visão dos benefícios desses alimentos e de uma alimentação diversificada para a manutenção da floresta em pé”.
As oportunidades apontadas no guia se aplicam a diferentes formatos de estabelecimentos de produtos agroecológicos, desde uma feira, até serviços delivery. Para isso, a pesquisa contou com a colaboração de estabelecimentos locais de Belém que ajudaram a cocriar o modelo da tecnologia social. Ao todo, foram 10 organizações trabalhando em conjunto com o Projeto ‘Da Amazônia para Belém’ para que culminassem em seis dimensões que devem ser consideradas para a criação de soluções de comercialização que se proponham a democratizar o acesso a alimentos locais, saudáveis e sustentáveis.
Fundada em 2010, a Associação de Produtores Orgânicos do Pará (Pará Orgânicos) foi uma das iniciativas locais que contribuíram com o projeto. Presidente da associação, Maria Jeanira Pinto Pereira lembra que, ainda hoje, os produtores enfrentam dificuldades para levar seus produtos até os consumidores, em Belém.
“A gente tem uma grande dificuldade, como produtor e comercializador desses produtos, em relação ao transporte nas nossas estradas que não são boas para chegar até Belém. Outra coisa é a comercialização, já que a gente não tem um lugar fixo para a venda de orgânicos, só temos as praças”, considera, ao lembrar que os produtores da Pará Orgânicos participam das feiras montadas, aos sábados, na Praça Batista Campos, e às quartas-feiras, na Praça Brasil. Caso existisse um espaço físico fixo para a comercialização, os produtores teriam não apenas mais segurança e estrutura para trabalhar, como ainda poderiam proporcionar o acesso da população a esses alimentos mais vezes ao longo da semana. “Se for procurar esses produtos da agroecologia direto, não encontra. Só tem nessas feiras esporádicas que a gente e outros produtores participam”.
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VIRTUAL
Para sanar essa carência e aproximar produtores e consumidores, o Grupo para Consumo Agroecológico (Gruca – Pará) exerce uma série de atividades na Região Metropolitana de Belém desde 2014. Outro coautor dos guias, o Gruca promove, dentre outras ações, a compra coletiva de produtos da agroecologia e, durante a pandemia da Covid-19, viu a necessidade de estruturar esse processo de comercialização de forma remota.
“Nessa situação de emergência que a gente viu, surgiu a alternativa de lançar a plataforma virtual, onde os consumidores pudessem escolher os produtos e a gente realizar essa entrega”, explica o produtor agroecológico e coordenador do Gruca, Noel Bastos Gonzaga.
Com a plataforma virtual, o grupo saiu de uma comercialização que era presencial, em que as pessoas iam buscar os seus alimentos no local, para uma plataforma online que oferece mais de 100 itens.
“Foi uma exigência que veio com a pandemia porque a gente viu toda a nossa rede de produtores muito preocupada de perder, às vezes, a única fonte de renda que eles tinham. A partir daí partimos para esse modelo de plataforma, com a loja virtual, e a entrega que era quinzenal passou a ser semanal”, conta. “Para produtores que não conseguem acessar as feiras, a gente vai até eles buscar, toda semana, os alimentos que foram pedidos pelos consumidores na plataforma”.