Artigo: Famílias de sindicalistas mortos lutam pelo direto à memória
Publicado Diário FMem 04/04/2025
Noemi tinha seis meses quando seu pai foi morto em Moju, no dia 05 de abril de 1987. Era a 11ª filha de Virgílio Serrão Sacramento e Maria do Livramento Diniz Sacramento. Seus irmãos, Dorival, Dinalva, Edna, Sandra, Elias, João, Lourdes e Marlene, ficariam órfãos naquele dia.
O pai, um ativista social, era ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Moju e era seu representante na Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará, onde havia tomado posse meses antes como membro desta direção. Era também tesoureiro da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Pará, além de fundador da do Partido dos Trabalhadores (PT), quando havia concorrido como suplente de senador nas eleições de 1986.
O líder sindical possuía em seu currículo uma vasta caminhada na luta e defesa dos trabalhadores rurais de Moju desde o fim da década de 1970, quando ali chegaram diversos projetos agroindustriais e houve diversas tentativas de expropriação das terras destas famílias.
A frente do Sindicato dos Trabalhadores de Moju, Virgílio fez muitas denúncias nos órgãos governamentais para que estes problemas fossem solucionados. Denunciou também os desmandos nos meios de comunicação da capital paraense, inclusive quando de sua prisão em 1984, por defender um colono.
A morte de Virgílio, ocorrida através de um atropelamento por um caminhão madeireiro, a um quilometro de sua casa, deixou visível no asfalto as marcas de que aquele não era simplesmente um ‘acidente’, mais um atropelamento proposital.
Nesta década, de 1980, os números de mortes relacionadas aos conflitos pela terra na Amazônia, sobretudo no Pará, foram alarmantes, grande parte eram feitos por pistoleiros com uso de armas de fogo. No caso de Moju, o modo operantis, foi um meio de transporte para que ali se caracterizasse como um acidente de trânsito.
No dia 06 de abril de 2025, a morte do líder sindical Virgílio Serrão Sacramento, completará trinta e oito anos, a mesma idade de sua filha caçula que não o conheceu em vida, apenas pelas histórias que os familiares e outras pessoas narraram a seu respeito. Para esta filha, ficou a dor de não ter “tido um toque, um abraço, um carinho, nada disso foi permitido”.
Encontro de familiares em Belém
Nos dias 10 e 11 de abril, será realizado o Seminário “As Políticas de Memória, Justiça e Reparação: as demandas dos desaparecidos, torturados e mortos pela Ditadura Militar no Pará”, quando ocorrerá o encontro de alguns familiares de lideranças sindicais, advogados, políticos que foram mortos nos anos de 1980, por suas atuações em defesa de colonos, posseiros, trabalhadores rurais.
Adélia Martins Brigel, ao receber o convite para participação do evento, não escondeu sua emoção. Segundo ela, no dia da morte do seu pai, tinha quinze anos. Recorda que seu pai era lavrador, não tinha outra profissão, só sabia fazer os trabalhos da lavoura. Quando da morte de seu pai, a situação ficou bem difícil, sofrendo preconceitos, passando por diversas necessidades.
O pai de Adélia se chamava Belchior Martins Costa, quando de sua morte em 03 de fevereiro de 1982, teve seu corpo perfurado por 140 disparos de armas de fogo. Na ocasião, era membro do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria. Aliás, o município que ali surgia, seria um dos principais alvos pelas disputas de terra no estado do Pará.
Além de Adelia, Viviane Braz, outra órfã de uma liderança sindical do mesmo município também estará em Belém para participar do seminário. Também emocionada recorda do que aconteceu com seu pai na noite de sua morte. “Numa noite, por volta das 19 horas, como ele era mecânico, chegou umas pessoas de carro e falaram que tinha um caminhão quebrado, eles precisavam de socorro, o pai chamou o sócio e foram juntos. Eu estudava na época a noite e não sabia o que tava acontecendo. Aí fui ficando muito angustiada na escola e um choro sem explicação. Amigos me levaram para a escola e quando cheguei e meu pai não tava, o mundo desabou. De manhã havia muitas pessoas na oficina, trouxeram meu pai e o sócio dele, sem vidas já. Meus irmãos ficaram desesperados e um se escondeu e o outro saiu correndo pela rua sem destino”.
Viviane Braz, filha de Braz Antônio da Silva, seria mais uma vítima do latifúndio em Rio Maria. Mais ainda teriam mais outras diversas vítimas, entre estes figuraria dois nomes que ganhariam repercussão internacional. Expedito Ribeiro de Souza e João Canuto, lideranças sindicais expressivas deste município, que teriam suas vidas interrompidas de forma brusca. João Canuto, pai de Luzia Canuto, Orlando Canuto, Marçal Canuto, teria ainda dois irmãos mortos neste mesmo território.
Expedito Ribeiro, pai de Antônia, que estará presente no evento na capital paraense, é outra que carrega a dor de não tido a convivência do pai. Expedito, além de líder sindical, era fundador do PCdoB no município, além de poeta, escritor.
São muitos os casos de familiares que perderam o pai na luta pela terra na Amazônia, principalmente no estado paraense. A década de 1980, figura como uma das mais letais. Em grande medida, estas mortes foram ocasionadas pelo desejo de pessoas de terem muito mais terras, sobretudo por aquelas pessoas que tiveram o apoio dos governos militares para implantarem algum projeto nesta imensa região.
Frente a tudo isso, familiares como os citados, além de muitos outros, como os dos filhos de Benedito Alves Bandeira, o ‘Benezinho’, morto em 1984 em Tomé-Açu, quando seus algozes foram mortos pela população revoltada, vivem até hoje com a sensação da impunidade, mais sobretudo da dor pela falta da presença paterna, de carinho que nunca tiveram. E assim, como no livro de Rubens Paiva, que deu origem ao filme “Ainda estou aqui”, assim também são estes filhos e filhas órfãos da Amazônia, meio invisíveis, vão lutando para sobreviver e mais que tudo, para as memórias de seus pais possam resistir ao tempo.
Para saber mais: O artigo “Ainda estamos aqui”: a memória de filhos de um sindicalista assassinado em Moju/PA em fins da ditadura militar (1980) – Acesso em Revista Escrita do Tempo
Elias Diniz Sacramento é professor de História da Universidade Federal do Pará e filho de Virgílio Serrão Sacramento.