“Guardiões da Galáxia” chega ao fim e mata a autoria de Gunn

Publicado em 03/05/2023

“Deus não existe, então tomei seu lugar”,
grita o Alto Evolucionário, tirano intergaláctico da vez em “Guardiões da
Galáxia Vol. 3”. Ele é um geneticista alienígena, diretor de uma
corporação espacial cujo objetivo é criar uma espécie perfeita para povoar sua
Contra-Terra, uma versão melhorada da Terra.

Em certa medida, o mote do novo blockbuster da
Marvel encontra eco no final do romance “Partículas Elementares”, do
escritor Michel Houellebecq, no qual o leitor descobre que o livro inteiro não
passa de um relato sobre a substituição da humanidade por sua evolução
geneticamente perfeita.

A história do principal responsável por esta
mudança, um geneticista com problemas de socialização e sexualmente reprimido,
é contada até o ponto em que ele termina a pesquisa da sua vida e some do mapa
-presumidamente se suicidando.

Ele não vive para ver a terra prometida -a
elaboração prática de sua pesquisa teórica-, mas, diferente de Moisés, o
profeta do pentateuco, talvez nunca tivesse esse desejo. O livro termina com um
tributo, escrito pelo ser transumano, a todas as imperfeições, paradoxos e
tristezas que morreram conosco.

Da mesma forma, os experimentos do vilão do novo
“Guardiões da Galáxia” são contra a lei intergaláctica, mas isso não
o impede de criar e destruir populações inteiras a cada tentativa frustrada.

Ele é também o responsável pelas experiências que
levaram à criação de Rocket Raccoon, o guaxinim biônico com uma das maiores
inteligências do universo Marvel. É uma inteligência que permite que o Alto
Evolucionário consiga finalmente dar um importante passo para a realização de
seu objetivo.

Mas o guaxinim entende que, apesar de genial, não
passa de um esboço descartável e que ele também nunca verá a terra prometida.
Então, decide fugir antes de seu sacrifício e acaba se juntando à trupe dos
Guardiões.

James Gunn, o diretor, quase não teve a chance de
finalizar a trilogia que catapultou sua carreira dentro do estúdio Marvel.
Depois que tweets antigos com piadocas sobre pedofilia vieram à tona, o
todo-poderoso produtor executivo da Marvel, Kevin Feige, pediu sua cabeça para
acalmar as têmporas de acionistas da Disney.

Ele acabou na Warner, escrevendo e dirigindo a
continuação com classificação indicativa de 18 anos de “O Esquadrão
Suicida” para a concorrente DC. Gunn pode ser creditado como o principal
responsável pela mudança definitiva no processo de aperfeiçoamento da fórmula
Marvel.

Ele pegou um núcleo de personagens risíveis da
editora e os transformou em um fenômeno com seu cinema irônico, autorreferente
e escatológico.

O primeiro filme da série, de 2014, foi recebido
como a promessa de um cinema autoral dentro das já aparentes restrições do
estúdio, mas o tempo mostrou que tudo não passou de um esboço para um plano
maior, que absorveria e obliteraria sua contribuição original ao nível do
simulacro.

Como Rocket Raccoon, Gunn foi um experimento feliz,
mas imperfeito e, portanto, descartável. Um esquisito, como o descrito na
música “Creep” que o guaxinim canta na primeira cena do filme -antes
de voltar a ser caçado pelo Alto Evolucionário para que seu cérebro seja
extirpado de seu corpo e sua inteligência seja estudada e integrada à nova
espécie.

A saída nestes casos, como diz o filme, é parar de
fugir e ir atrás de vingança. “Guardiões da Galáxia Vol. 3” vai aos
limites da bastante limitada fórmula Marvel. É provavelmente o seu filme mais
violento, com menos ironia gratuita e com mais sensação de finalização do arco
narrativo entre as suas personagens.

O filme é guiado pela história de Rocket, que,
embora seja um guaxinim, é o personagem mais humano do estúdio. Sua origem
traumática e comportamento problemático afloram através de ressentimentos e
angústias palpáveis. A história sempre foi sobre ele.

Naquele que aparenta ser o início do apagar das
luzes de todo o fenômeno Marvel, temos um tributo a todas as imperfeições,
paradoxos e tristezas que um cineasta com um pouco de liberdade conseguiu criar
nas condições do estúdio.

As cenas pós-créditos não prometem tanto quanto já
prometeram. Um alívio.

GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 3

Avaliação Bom

Onde Nos cinemas

Classificação 10 anos

Elenco Chris Pratt, Zoë Saldaña, Karen Gillan

Produção Estados Unidos, 2023

Direção James Gunn


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