Mostra no Museu da UFPA narra o Brasil pelas perspectivas do Norte e Nordeste
Publicado Diário FMem 13/08/2026
Quatorze artistas do Pará e do Ceará ocupam o Museu da Universidade Federal do Pará (MUFPA), em Belém, com a exposição “Imaginários Queer: entre o figurativo e o abstrato”, que reúne pinturas, esculturas, fotografias, vídeos, instalações e objetos para abordar temas como identidade, território, afetos, espiritualidades, ecologia e experiências LGBTQIAPN+. A mostra permanece aberta ao público gratuitamente até 3 de setembro de 2026.
Com curadoria de Eduardo Bruno Freitas e Paola Maués e curadoria adjunta de Waldirio Castro, a exposição propõe um encontro entre diferentes linguagens e poéticas contemporâneas. As obras percorrem caminhos que vão da figuração à abstração e apresentam diferentes maneiras de perceber o corpo, a paisagem, a memória, os afetos e as experiências dissidentes.
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MOSTRA APROXIMA PARÁ E CEARÁ
Realizada pela Plataforma Imaginários, a mostra chega à capital paraense depois de sua primeira edição no Cariri cearense. Para a temporada em Belém, a configuração original foi ampliada: aos sete artistas do Ceará foram acrescentados sete artistas paraenses. Nesse sentido, a reunião de 14 nomes cria um intercâmbio entre trajetórias e contextos distintos e evidencia a diversidade da produção artística contemporânea desenvolvida no Norte e no Nordeste.
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Para o diretor do Museu da UFPA, Luiz Tadeu da Costa, a realização da mostra reforça a vocação da instituição para receber debates contemporâneos. “Receber a mostra Imaginários Queer demonstra o nosso compromisso do Museu com uma universidade que valoriza a diversidade, a produção artística e os debates contemporâneos”, destaca.
Segundo Tadeu, a exposição também dialoga com discussões já presentes no ambiente universitário e amplia o papel do museu como espaço de encontro. “Essa é uma exposição que dialoga diretamente com discussões que já fazem parte da nossa instituição e fortalece o museu como espaço de reflexão, encontro e construção de conhecimento”, explica.
A participação de professores, egressos e artistas ligados à UFPA também é destacada pelo diretor como uma demonstração da aproximação entre produção acadêmica e criação artística, além de contribuir para o intercâmbio cultural entre Pará e Ceará.
ARTE PRODUZIDA FORA DO EIXO
Mais do que colocar frente a frente artistas de duas regiões, a proposta curatorial pretende questionar a maneira como a arte brasileira é apresentada e reconhecida. Para o curador Eduardo Bruno, pensar a produção artística a partir do Norte e do Nordeste ajuda a ampliar as narrativas sobre o país.
“A exposição propõe pensar o Brasil a partir dessas regiões. É uma forma de ampliar as narrativas sobre a arte brasileira e fortalecer redes de colaboração construídas de maneira horizontal entre artistas, pesquisadores e instituições”, ressalta.
A iniciativa está diretamente relacionada à origem da Plataforma Imaginários, criada com o propósito de aproximar artistas, pesquisadores e curadores do Norte e do Nordeste e estimular novos circuitos de circulação e colaboração.
UMA EXPOSIÇÃO CONSTRUÍDA POR MUITAS MÃOS
A experiência proposta ao público não se limita às obras expostas. A programação inclui performances, rodas de conversa e atividades educativas, criando diferentes possibilidades de interação com os trabalhos.
A curadora Paola Maués ressalta que a exposição é resultado de um processo coletivo que envolveu diferentes profissionais e instituições ao longo de meses. “Esta é uma exposição construída por muitas mãos. Cada obra, cada escolha curatorial e cada atividade foram pensadas para criar uma experiência coletiva.”
Para ela, a intenção é fazer com que a visita continue mesmo depois que o espectador deixa de observar diretamente as obras. “A visita não se encerra na contemplação, mas continua por meio de performances, ações educativas e encontros com o público”, destaca.
RESIDÊNCIA ARTÍSTICA TAMBÉM INTEGRA PARCERIA
A realização da mostra conta ainda com a participação da Galeria de Arte da UFPA, que recebeu uma residência artística do cearense Thyago Nunes. Parte da produção desenvolvida durante o período de residência será incorporada ao acervo da universidade.
O diretor da Galeria de Arte da UFPA, Orlando Maneschy, considera a exposição um exemplo da capacidade de diferentes setores da instituição trabalharem de maneira integrada. “Esta exposição é resultado de uma construção coletiva entre diferentes espaços da UFPA e parceiros externos”, pontua.
Maneschy também destaca o caráter multidisciplinar da iniciativa e sua contribuição para a formação acadêmica. “Ela demonstra como a universidade pode aproximar pesquisa, curadoria, produção artística e formação acadêmica, fortalecendo uma rede de colaboração que permanece para além da mostra.”
QUANDO O DESENHO VIRA MÚSICA
Entre os artistas participantes está Waléria Américo, professora da Faculdade de Artes Visuais da UFPA. Ela apresenta a série “Naturezas”, desenvolvida a partir de uma pesquisa que aproxima artes visuais, música e percepção.
O trabalho começa com desenhos produzidos pela artista. As linhas e formas são desconstruídas e reduzidas a pontos, que depois são reorganizados para formar partituras. A partir delas, surgem composições musicais criadas em parceria com outros músicos. O resultado propõe uma experiência que ultrapassa a observação das imagens e estimula o público a prestar atenção aos sons, à paisagem e ao espaço ao redor.
Na abertura da exposição, a série ganhou uma dimensão performática em uma apresentação realizada em parceria com Adriana Azulay, professora da Escola de Música da UFPA. Os visitantes puderam acompanhar ao vivo a transformação dos desenhos em experiência sonora.
“Meu trabalho parte do desenho, mas busca criar experiências de escuta”, explica, que a transformação das linhas em música é uma maneira de provocar uma percepção diferente no visitante. “Transformo linhas e pontos em composições musicais porque me interessa convidar o público a parar, ouvir e perceber outras formas de se relacionar com a paisagem e com o espaço”, detalha.
FERRUGEM, MEMÓRIA E PASSAGEM DO TEMPO
A professora Elaine Arruda, também da Faculdade de Artes Visuais da UFPA, participa da exposição com obras iniciadas em 2013. As peças foram produzidas sobre chapas metálicas que originalmente seriam utilizadas como matrizes de gravura. Ao longo de 13 anos, porém, o material permaneceu sujeito à ação do tempo.
A oxidação, que poderia ser considerada uma deterioração, foi incorporada pela artista ao processo de criação. Os sulcos produzidos pelas ferramentas romperam a proteção do metal e permitiram o aparecimento da ferrugem.
Em vez de interromper a transformação, Elaine decidiu fazer dela parte da própria obra. Inspirados pela música e pela paisagem amazônica, os trabalhos não procuram reproduzir figuras reconhecíveis, mas traduzir vibrações, movimentos e memórias presentes na matéria. “Esses trabalhos nasceram em 2013 e passaram mais de dez anos reagindo ao tempo”, revela.
A artista explica que sua intenção não é reproduzir literalmente uma paisagem, mas registrar sensações e transformações. “O que me interessa não é representar a paisagem, mas a vibração das coisas, as transformações que vivemos e as marcas que o tempo deixa em nós e na matéria.”
ARTISTA DESTACA IMPORTÂNCIA DE EXPOR NA UFPA
A presença de Elaine na exposição ganha ainda um significado especial por ocorrer justamente no Museu da universidade onde ela trabalha. A artista considera a participação uma forma de reconhecimento de sua trajetória e também uma oportunidade de inspirar os estudantes que acompanham seu trabalho. “É muito importante ser reconhecida pela instituição em que atuo como professora.”
Ela também vê a exposição como incentivo para quem está começando a construir uma trajetória profissional nas artes. “Também vejo essa participação como um incentivo aos estudantes que acompanham minha trajetória e desejam seguir a carreira artística.”
SERVIÇO
- Exposição: Imaginários Queer: entre o figurativo e o abstrato
- Local: Museu da Universidade Federal do Pará (MUFPA)
- Visitação: até 3 de setembro de 2026
- Horário: segunda a sexta-feira, das 10h às 16h
- Entrada: gratuita