Norte fica com só 2% dos recursos para incentivo do esporte; como participar?

Publicado em 18/09/2026

A Lei de Incentivo ao Esporte (LIE) movimentou mais de R$ 6,5 bilhões no Brasil entre 2007 e 2024. Apesar do volume expressivo, a distribuição dos recursos revela uma forte concentração regional: 74% do total ficaram com proponentes do Sudeste e 15% com os do Sul. Norte, Nordeste e Centro-Oeste dividiram os 11% restantes — e apenas 2% chegaram a organizações da região Norte.

O cenário levanta uma questão que vai além da existência de dinheiro para financiar projetos esportivos: quem consegue acessar esses recursos?

Entre os desafios enfrentados por organizações sociais estão a elaboração de projetos, o domínio da legislação, a organização documental, o planejamento financeiro e a busca por empresas interessadas em patrocinar as iniciativas.

Capacitação para acessar recursos

É nesse contexto que atua a Rede CT – Capacitação e Transformação, iniciativa voltada ao fortalecimento de organizações da sociedade civil que desenvolvem projetos esportivos no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Criada a partir da parceria entre a Rede Igapó e o Instituto Futebol de Rua, a iniciativa oferece formação e acompanhamento técnico para ajudar as organizações a estruturar projetos, organizar processos e desenvolver estratégias de captação por meio da Lei de Incentivo ao Esporte.

Nos últimos três anos, organizações participantes da Rede CT captaram mais de R$ 40 milhões por meio da LIE. No mesmo período, a iniciativa colaborou para a aprovação de 270 projetos.

Segundo os dados apresentados pela Rede CT, esses projetos correspondem a 16,3% de todos os projetos aprovados no Norte, Nordeste e Centro-Oeste no período e representam uma carteira de aproximadamente R$ 190 milhões em possibilidades de investimento social.

Outro indicador apresentado pela iniciativa diz respeito à entrada de novos proponentes no mecanismo. Mais da metade, 52,3%, conseguiu captar recursos financeiros pela primeira vez. Já 77,8% tiveram a primeira experiência com esse tipo de mecanismo.

Para Fernando Salum, diretor da Rede Igapó, uma das organizações responsáveis pela Rede CT, ampliar os recursos disponíveis precisa vir acompanhado de medidas que possibilitem o acesso de instituições de diferentes regiões.

“Quando olhamos para os números, fica evidente que não basta ampliar a quantidade de recursos disponíveis se eles continuarem concentrados nos mesmos territórios. Existem organizações extremamente potentes no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com impacto comprovado em suas comunidades, mas que historicamente tiveram menos acesso às ferramentas e às conexões necessárias para captar.”

Segundo Salum, o objetivo da iniciativa é contribuir para que essas organizações desenvolvam autonomia para buscar financiamento.

“A Rede CT trabalha justamente para reduzir essa distância e criar condições para que essas organizações ocupem esse espaço com mais autonomia.”

Sudeste ainda concentra investimentos

Os dados apresentados pela Rede CT também apontam que a distribuição regional apresentou alguma mudança entre 2022 e 2025. Nesse intervalo, Norte, Nordeste e Centro-Oeste ampliaram sua participação na captação, enquanto a fatia do Sudeste caiu para cerca de 71%.

O movimento, porém, não se manteve de maneira contínua. Em 2025, os proponentes do Sudeste voltaram a concentrar quase 75% dos recursos captados.

A oscilação mostra que a descentralização dos investimentos não ocorre automaticamente e envolve fatores como capacidade técnica, estrutura das organizações, relacionamento com potenciais patrocinadores e conhecimento sobre os mecanismos de incentivo.

Para Salum, o fortalecimento institucional pode contribuir para que o conhecimento adquirido permaneça nas próprias organizações e nos territórios onde elas atuam.

 “Quando uma organização aprende a elaborar seus projetos, organizar sua documentação, apresentar seu impacto e construir uma estratégia de captação, ela deixa de depender exclusivamente de oportunidades pontuais. Esse conhecimento permanece no território.”

Onde está o dinheiro do esporte?

A concentração regional dos recursos da Lei de Incentivo ao Esporte não significa necessariamente que não existam projetos esportivos no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O cenário também envolve a capacidade de transformar iniciativas locais em projetos aptos a disputar recursos incentivados e, posteriormente, encontrar patrocinadores.

A Rede CT trabalha justamente nessa etapa, oferecendo capacitações que envolvem planejamento, orçamento, documentação, comunicação institucional, identificação de patrocinadores e estratégias de captação.

A discussão ganha importância diante da perspectiva de crescimento dos recursos destinados ao esporte incentivado. Para além do aumento do volume disponível, o desafio passa a ser entender como fazer com que esse investimento alcance mais territórios e organizações fora dos grandes centros econômicos.

Para Salum, a atuação em rede pode ampliar esse movimento.

 “Uma organização fortalecida consegue avançar, mas uma rede de organizações fortalecidas tem capacidade de transformar todo um ecossistema. Quando criamos espaços de troca, formação e conexão, ampliamos também a visibilidade de projetos que estão fora dos grandes centros.”

E resume o desafio da descentralização: “O próximo passo da Lei de Incentivo ao Esporte precisa ser olhar não apenas para quanto o Brasil consegue mobilizar, mas para onde esse dinheiro está chegando.”


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