“Renaissance” de Beyoncé evoca o calor das boates

Publicado em 29/07/2022

Beyoncé está
de bem com a vida em seu novo álbum, “Renaissance”, obra dançante que
marca o retorno de uma das maiores estrelas da música pop do planeta, seis anos
depois de “Lemonade”, seu último disco solo de inéditas. Com 16 faixas,
o trabalho, vazado na internet às vésperas de seu lançamento, é uma convocação
ao movimento, conversando com o passado e o presente e imaginando o futuro da
pista de dança.

“Renaissance”
segue o caminho aberto por “Break My Soul”, single que antecipou o
álbum, calcado na house music dos anos 1990, com um sample do hit “Show Me
Love”, de Robin S, de 1993, e vocais de Big Freedia. A faixa anuncia uma
espécie de libertação. “Acabei de me apaixonar, e acabei de deixar meu
emprego”, ela canta.

O novo disco
é um reencontro de uma das maiores artistas da música contemporânea com seus
fãs, já que desde “Lemonade” ela até lançou outros trabalhos, mas
todos paralelos à sua carreira solo. O mais celebrado deles foi
“Everything Is Love”, álbum em parceria com o marido Jay-Z, de 2019,
sob o nome The Carters, mas ela também lançou o ao vivo “Homecoming”,
gravado no festival americano Coachella e o disco “Black Is King”,
que acompanha o remake do filme “O Rei Leão”, da Disney, entre outros
projetos.

E mesmo em
“Lemonade” Beyoncé não aparecia tão alinhada com a música dançante
que a alçou à fama nos anos 2000 -não é à toa que “Break My Soul”
tenha sido produzida por Tricky Stewart e The-Dream, mesmo time por trás de
“Single Ladies”, um dos maiores hits da artista, de 2008. O disco de
2016 até tinha faixas com apelo pop, mas também tocava em temas sociais, como
feminismo e racismo -em especial no hit “Formation”, com alusões aos
Panteras Negras, que a pôs em rota de colisão com forças policiais americanas.

“Renaissance”
também reflete um reencontro mais amplo, depois de anos de pandemia e
isolamento social, como se anunciasse que o momento é de celebrar e festejar.
No novo disco, Beyoncé está disposta a prover a trilha sonora para esses
encontros.

Foi mais ou
menos o que ela disse à edição americana da revista Harper’s Bazaar, no fim do
ano passado. “Com todo o isolamento e injustiça do ano passado, eu acho
que nós estamos prontos para escapar, viajar, amar e rir de novo. Sinto um
renascimento emergindo e eu quero fazer parte disso nutrindo esse escapismo de
qualquer forma possível.”

Mas, se
“Renaissance” marca uma volta ao pop escapista, esse retorno passa
longe de ser uma recuperação saudosista dos clássicos da pista que ela
enfileirou nos anos 2000. Agora, Beyoncé faz um estudo de um espectro amplo de
gêneros que balançam a pista de dança, oferecendo um caleidoscópio de ritmos
que se revelam mais ou menos explicitamente ao longo do álbum.

“Renaissance”
começa arrastado com “I’m That Girl” e a temperatura vai subindo já na
música seguinte, “Cozy”, em que Beyoncé fala de amor próprio e diz
estar confortável na própria pele -samples de vozes esclarecem que ela está
falando de uma pele escura. É uma faixa que estabelece o clima de confiança que
domina as letras e o sentimento da Queen B.

“Alien
Superstar” cria um clima pop futurista, e a cantora rima como uma MC e
sussurra no refrão, enquanto a palavra “único” -numa celebração das
particularidades de personalidade- é repetida ao fundo. “Cuff It”
conta com a guitarra do lendário Nile Rodgers numa incursão pela música disco
que remete ao trabalho de Dua Lipa em “Future Nostalgia”.

Em
“Renaissance”, Beyoncé imagina um pop dançante, cintilante e
insolente para uma nova era, feito a partir de disco, house, techno, dancehall,
synthpop, afro beats, trap e R&B, entre outros ritmos que se entrelaçam ao
longo do disco. “Energy” é a parceria mais explícita da obra, em que
a cantora divide o microfone com o cantor jamaicano Beam.

“Church
Girl”, assinada pelo renomado produtor No I.D., traz um sabor gospel, mas
o clima ameno é subvertido por batidas eletrônicas duras e aceleradas.
“Plastic Off the Sofa”, um R&B suave e levado por um baixo
inquieto, surge como um respiro de candura em meio à euforia dançante. Beyoncé
fala sobre situações mundanas em que o amor se revela, numa espécie de
declaração romântica.

Mas a
tranquilidade dura pouco, já que “Virgo’s Groove”, com um título que
faz referência ao signo da cantora, leva o ouvinte de novo ao balanço. Ao longo
de mais de seis minutos, Beyoncé distribui harmonias vocais complexas, uma de
suas marcas registradas desde a época da banda Destiny’s Child, por cima de uma
base que poderia ser retirada de uma música do Prince da década de 1980.

“Move”,
com participação da jamaicana Grace Jones e da nigeriana Tems, se conecta com o
pop contemporâneo feito no continente africano em mais um chamado à dança,
enquanto “Heated” faz as pontes com o dancehall. “Thique”
exala sensualidade e embola elementos do trap com batida de house, ritmo que
também aparece em “Pure / Honey”, desta vez entremeado em momentos
R&B, colagens de samples, arranjos de sopro e coros vocais, tudo guiado
pelos vocais versáteis de Beyoncé, emendando rimas em falsetes delicados.

“America
Has a Problem” se insinua como um Miami bass -ritmo que está na gênese do
funk brasileiro-, mas se transforma num pop com a cara da obra mais clássica de
Beyoncé, que lembra o personagem Tony Montana, de “Scarface”, e se
apresenta durona na letra. Já “Summer Renaissance” encerra o disco
evocando a cena ballroom, numa construção que vai crescendo até desembocar num
refrão resgatado da clássica “I Feel Love”, de Donna Summer
-referência da cantora desde pelo menos “Naughty Girl”, de 2003-com o
guru da disco music Giorgio Moroder, enquanto ela enumera marcas de luxo.

Francamente
dançante, “Renaissance” conversa com o corpo numa premissa parecida
com o que Lady Gaga fez, com outras referências e estética, no álbum
“Chromatica”, de 2020. É um álbum com a cara de Beyoncé, com algum
nível de autorreferência, mas que também expande o entendimento da cantora em
torno do que significa fazer música para dançar.

À beira dos
41 anos, Beyoncé parece se divertir sem se preocupar em se encaixar na cartilha
atual da indústria fonográfica, trazendo em “Renaissance” faixas longas
e bem distantes do apelo instantâneo do TikTok. “Renaissance” vai
muito além da urgência do pop mais farofa, sem contudo negar isso, numa ode à
pista de dança feita por uma das maiores conhecedoras de seus mecanismos.

 

RENAISSANCE

Quando
Lançamento na sexta (29)

Onde Nas
plataformas de streaming

Autor
Beyoncé

Gravadora
Sony


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